Em 1968, jovens tomavam as ruas, enfrentavam governos e acreditavam que poderiam mudar o mundo. Hoje, em um cenário marcado por hiperconectividade, individualismo, insegurança econômica e guerras transmitidas em tempo real, parte da juventude parece seguir outro caminho. O avanço de pautas conservadoras entre jovens em diversos países levanta uma questão inquietante: o que aconteceu com a geração da rebeldia? Entre a herança de Maio de 68 e os alertas sobre a crescente indiferença diante da violência, este artigo investiga as profundas transformações culturais e políticas que moldaram a juvent
Muito além de um protesto estudantil, uma ruptura cultural, política e simbólica que redesenhou o século XX Por DJALBA LIMA (*) FacebookLinkedinWhatsAppThreads 1968 foi o ano que ninguém esqueceria. Começou sob o signo da esperança. Em 31 de dezembro de 1967, a manchete do The New York Times parecia anunciar uma despedida melancólica, mas otimista de um mundo em crise: “The world says goodbye to a violent year” (“O mundo dá adeus a um ano violento.”) O ano que terminava fora brutal. Guerras, assassinatos políticos, tensões raciais e revoltas sociais. Parecia razoável imaginar que 1968 pudesse
Por que Juscelino Kubitschek continuou sendo visto como ameaça estratégica pelo regime militar. JK simbolizava o Brasil que dava certa e, por isso, era considerado perigoso pela ditadura. Foto de Gervásio Batista/EBC FacebookLinkedinWhatsAppThreads Em algum momento dos anos 1970, os setores mais duros da ditadura brasileira perceberam algo inquietante: a esquerda armada estava praticamente derrotada, mas o regime continuava vulnerável. A ameaça já não vinha mais das guerrilhas esmagadas pela repressão. Nem dos estudantes perseguidos. Nem dos exilados dispersos pelo mundo. Ela vinha de algo mai
FacebookLinkedinWhatsAppThreads Por DJALBA LIMA (*) Em 1946, a Europa reaprendia a respirar. As cidades estavam feridas, os mapas haviam sido rasgados e reescritos à força, e a contabilidade do horror ainda era feita a lápis – milhões de mortos, deslocados e órfãos. A guerra havia acabado, diziam os grandes acordos diplomáticos; o século, porém, ainda sangrava. Os “Três Grandes” na Conferência de Yalta, fevereiro de 1945. Sentados, da esquerda para a direita: Winston Churchill, Franklin D. Roosevelt e Joseph Stalin. Ali se decretou o fim formal da Segunda Guerra e se redesenhou o mapa da Europ
FacebookLinkedinRedditWhatsAppThreads TRANSCRIÇÃO DO PODCAST SAMARA: Quando aquele operário de uniforme azul da Mercedes Benz desceu do ônibus da linha 203, às 20h05 de 11 de maio de 1960, em um subúrbio modesto de Buenos Aires, não fazia ideia de que estava dando seus últimos passos como homem livre. Muito menos que quase um ano depois seria o centro de um dos julgamentos mais importantes do século. DJALBA: O homem de passos curtos, cabeça baixa e olhar cansado chamava-se, nos documentos, Ricardo Klement. SAMARA: Mas por trás desse nome escondia-se um dos arquitetos da Solução Final: o tenent
FacebookLinkedinRedditWhatsAppThreads Em 13 de dezembro de 1968, o Brasil atravessou uma fronteira sem retorno imediato. Naquela noite, o governo do general Artur da Costa e Silva editou o Ato Institucional nº 5, o AI-5 — o instrumento que suspendeu direitos, silenciou vozes e institucionalizou o arbítrio. Não foi apenas mais um decreto autoritário: foi a certidão oficial da ditadura em sua forma mais dura. Cinquenta e sete anos depois, compreender o AI-5 é compreender o que é uma ditadura, como ela se constrói juridicamente e por que a memória desse período é essencial para a democracia. O Br
FacebookLinkedinRedditWhatsAppThreads Por DJALBA LIMA (*) João Goulart deixou o Brasil na madrugada silenciosa de 2 de abril de 1964, não por escolha, mas por fidelidade a um princípio: evitar que o país escorregasse para a guerra civil. Cruzou a fronteira rumo ao Uruguai escoltado por soldados que até horas antes lhe deviam obediência. Foi recebido não como presidente deposto, mas como um homem inquieto, preocupado com o destino de um país que lhe virara as costas. No exílio, primeiro em Montevidéu e depois na pequena Mercedes, na Argentina, Jango viveu cercado de vigilância, espionagem e sus
FacebookLinkedinRedditWhatsAppThreads Cinco décadas após sua morte, em 4 de dezembro de 1975, Hannah Arendt permanece uma figura que provoca amor, irritação, fascínio e desconforto — não necessariamente nessa ordem. Mais do que uma filósofa, ela foi uma testemunha privilegiada e ferida das convulsões do século XX. Nada em sua vida foi simples. Nada foi linear. Nada foi cômodo. Talvez por isso sua obra continue tão viva. Arendt nunca pertenceu totalmente a lugar algum — e, mesmo quando pertencia, escapava. Uma juventude brilhante – e um amor proibido com Heidegger Nascida em Linden, no então Im
FacebookLinkedinRedditWhatsAppThreads Por DJALBA LIMA (*) Novembro de 2025 marca meio século de um dos episódios mais sombrios — e ainda insuficientemente conhecidos — da história latino-americana: a Operação Condor, a rede clandestina de perseguição internacional montada por ditaduras do Cone Sul para vigiar, capturar, torturar e eliminar opositores políticos além das fronteiras nacionais. Historiadores e jornalistas conheciam fragmentos dessa história desde os anos 1980. Mas a combinação de arquivos latino-americanos, documentos norte-americanos desclassificados, testemunhos de vítimas e tra
FacebookLinkedinWhatsAppThreads A queda de Getúlio Vargas, 80 anos atrás, inaugurou o padrão brasileiro de ruptura: pactos de elites decidindo o destino do país enquanto o povo dançava ao som da modernidade que chegava do rádio. TRANSCRIÇÃO DO PODCAST DJALBA: 29 de outubro de 1945 – oitenta anos atrás. A ditadura do Estado Novo chega ao fim. E o Brasil assiste à queda de Getúlio Vargas, Mas não como nas deposições épicas dos filmes, nas barricadas, ou nos levantes de massas espontâneos. Aqui, o fim sempre acontece em silêncio. Nos subterrâneos ou nos corredores fechados do poder. Hoje vamos en